Trabalho infantil no lado oposto da inclusão

De plantão na emergência de hospital público pode-se falar tudo, menos de rotina. Pelo menos pelos hospitais por onde andei desde ainda estudante, passando pela residência médica. Tem de tudo. Inclusive dolorosos episódios envolvendo crianças acidentadas no trabalho.

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Luciano Siqueira

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https://jornaldecaruarupagina2.files.wordpress.com/2011/11/luciano_siqueira_sc3a9rio.jpg?w=299Nunca me esqueço de uma garota que atendi na emergência do Hospital João Murilo, em Vitória de Santo Antão, que aguentou a sutura a cru – porque o anestésico já não funcionava devido ao tempo da lesão – de um tendão de uma das mãos, que cortara no eito da cana. Uma lagrima sequer, apesar da dor, tal a sua intimidade com as condições adversas de existência.

Agora se divulgam novos números acerca de acidentes de trabalho envolvendo crianças e adolescentes – em contraponto à expressiva ampliação da inclusão de cerca de 30 milhões de brasileiros ao sistema produtivo, desde os dois governos sucessivos de Lula. Ou seja, esse mal revoltante – o trabalho infantil – está longe de ser erradicado em nosso país.

A Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro) tem se ocupado do assunto. E mesmo constatando subnotificação em nossa rede de saúde, anota dados preocupantes: em média três menores de até 17 anos se acidentaram por dia trabalhando no Brasil nos últimos dois anos e meio; 37 morreram no trabalho.

São diversas as situações e os agravos à saúde registrados, que vão do distúrbio osteomuscular (DORT) por esforço repetitivo à mutilação parcial. Muitos casos se dão devido à exposição indevida a agentes químicos, que comprometem irreversivelmente a saúde e encurta a sobrevida.

O PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), que realiza um conjunto de ações visando à retirada de crianças e adolescentes de até 16 anos das práticas de trabalho infantil, exceto na condição de aprendiz a partir de 14 anos, tem se ampliado e melhorado de desempenho, mas alcança cobertura ainda limitada – pouco mais de mais de 820 mil crianças afastadas do trabalho em cerca de 3,5 mil municípios. Tem sentido assistencial e procura remediar o problema, muito pouco o previne.

A prevenção só é possível com a elevação do patamar de desenvolvimento econômico em moldes que distribuam renda e valorizem o trabalho. Isto porque em geral as crianças vão precocemente à labuta, ao invés de frequentarem a escola, justamente pela necessidade de reforçar a renda de famílias submetidas à condição de extrema pobreza.

Bem que os senhores todo-poderosos que se reúnem no Copom (Conselho de Política Monetária do Banco Central) pensassem nisso quando arbitram o valor da taxa básica de juros, a Selic, compreendendo que a sua redução contribui para o incremento da produção e do emprego – e, em grande medida, para a diminuição do trabalho infantil.

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por Jornal de Caruaru

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